Antes de entrar no serviço vejo um carro parado no estacionamento penso que deve ser de algum dono dessas butiques de grife que vendem produtos superfaturados que exploram pessoas desesperadas com suas contas a pagar. Todos os dias acordo as cinco da manhã, a tortura começa, tomo apenas um café preto, abro a porta, saio de casa para enfrentar as ruas, pego o ônibus lotado, parece mais uma lata de sardinha espremida de humanos, em seguida o trem, seis cabeças por metro quadrado. Chego para trabalhar, agüento oito horas diárias, meu chefe fica uma boa parte desse período falando, às vezes berrando o que tenho e devo fazer, o que é certo ou errado. No final do expediente depois de um dia duro, volto para casa e desço a caminho da estação. Dentro do trem, trabalhadores cansados dormem sem quase respirar, no outro lado do canto superior, jovens esperançosos com seus cadernos debaixo do braço gargalham alto da vida, dos prazeres e dos sonhos. Na outra estação pessoas descem, o trem fica vazio, olhando para fora os carros passam sem me distrair. Observo através do reflexo estampado no vidro grosso da janela, uma mulher gritando, pedindo ajuda, ela segurava uma bola de carne que saia do seu pescoço, parecia uma enorme ferida, ela gritava que estava com tuberculose aguda e que precisava de dinheiro para financiar o tratamento, as pessoas não conseguiam olhar para a pobre mulher. Cheguei em casa, tomei uma ducha preparei um sanduíche, liguei o computador, comecei a escrever o fato.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Passamos boa parte de nossas vidas lutando contra os ponteiros do relógio, brigando com o tempo, reclamamos da demora, nos minutos perdidos nas filas dos caixas de supermercados, lojas, queremos que as horas passem depressa em nossos empregos, ficamos angustiados dentro de nossas noivas mecânicas parados no transito a caminho da cidade caótica, solitária, corremos feito um bando de malucos pra lá e pra cá sem saber para onde estamos indo. No final de um longo processo, de um doloroso pesadelo que é a vida, alguém marcará a hora do nosso enterro.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
O Animal que conta histórias
Consegui chegar ao prédio depois de uma hora no transito caótico da cidade, era uma segunda feira chuvosa, poucas pessoas transitavam pelas ruas. Abri a porta do saguão, dei de frente com um camarada de campana, ele estava tremendo, bicudo até o talo, perguntou se eu estava a fim de usar drogas, não hesitei nem por um momento, na hora lembrei que eu estava trabalhando que nem burro de carga, doze dias seguido sem folga, pensei bem, porque não? Falei para ele esperar, precisava guardar minha mochila, ligar para minha namorada e pegar mais dinheiro. Entrei no quarto, abri a gaveta, peguei a carteira e uma nota de cinqüenta reais, ela cheirava a nova. Fui na cozinha, ainda tinha café na garrafa, coloquei no copo e desci as escadas correndo desesperado. Ele estava lá, pegamos o carro e fomos direto à fonte, seis cápsulas, três pra cada, a quantidade era um absurdo, fiquei assustado, pensando que desta vez iríamos assinar nossa sentença de morte, abrimos uma e despejamos tudo, esticamos duas carreiras imensas, a cocaína era boa, parecia que eu tinha corrido dois quilometro sem parar, comecei a suar frio, meu coração disparou e meus dentes começaram a ranger, meu colega estava incomunicável. Paramos no posto, compramos seis latas de cerveja, ficamos bebendo, ouvindo rádio que mesclava boas canções com pitadas de desgraças do mundo. Fui no banheiro, aproveitei para mandar outra carreira, essa bateu semelhante uma faca dilacerando um corpo apodrecido que nem carne na manteiga. Decidimos dar uma volta pelo centro da cidade, tudo estava fechado apenas bêbados e prostitutas arriscavam-se naquela noite fria, observamos uma padaria aberta, estacionamos o carro, descemos e compramos mais cerveja, o dono recusou-se a vender, prosseguimos e mais a diante, tinha um boteco horrível aberto, pegamos oito latas, uma garrafa de vodka, saímos rápido, minha mente não parava de pensar um minuto, despejei mais uma cápsula, mandamos e ainda restavam uma pra cada, com o álcool, meu colega começou falar mais, conversamos sobre política, religião, futebol, mulheres, violência banalizada e sobre a condição medíocre de nossas vidas. Colocamos o restante da cocaína, pensei que fosse ter um treco, comecei a tremer, meu coração disparou na hora, abrimos a garrafa de vodka e mandamos ver no gargalo mesmo, passei só a beber, o sujeito queria voltar e pegar mais dois papéis, eu disse pra ele que estava tranqüilo, estava assustado, com medo, percebe que tinha chegado no meu limite, o bom jogador deve saber a hora de parar. Eram cinco horas da manha, o dia estava claro, ninguém nas ruas, apenas alguns loucos se aventurando, quebrando garrafas de cerveja pelos cantos das ruas. Sugeri que passássemos no morro para pegar um fumo. Fomos até o local pegamos caminhando lentamente a ladeira. Paramos em uma praça e ascendemos um baseado gordo, ficamos contemplando o sol de todos os dias. Voltamos para casa e para dentro de nossas vidas tristes, vazias sem grandes novidades.
Alex Barbosa Medeiros
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Cachorro do Trópico
Charles é um homem solitário, sem mulheres, não tem família, primos mais velhos ou amigos. Vive só no seu apartamento minúsculo, onde passa a maior parte do tempo no quarto trabalhando, redigindo provas na frente do computador. Entre uma questão e outra, Charles bebe café puro, come pedaços de pizza, ascende alguns cigarros para aliviar a tensão dos prazos, quando o esforço é grande, compra gramas de cocaína, garrafas de vinho, carne, vitelas e barras de chocolate. Charles resolveu tirar alguns dias de folga, estava farto, cansado do mundo e das pessoas, não produziu nada, desligou o telefone, ficou sentado no sofá, fumando cigarro, lendo livros, olhava a rua vazia através da janela, nenhum cristão se aventurava no frio. Antes de ir dormir, ele se levantou, foi escovar os dentes, olhando para o espelho, tomou um enorme susto com seu reflexo, parou por alguns segundos, observou atentamente sua face estampada, seu rosto envelhecido, esburacados, pela primeira vez, sentiu o peso da idade, o medo da morte, talvez seus ossos começassem a doer lentamente, os cabelos dispersavam sobre sua cabeça. Charles sentia que algum órgão vital seu tinha apodrecido, talvez seu coração, talvez o sangue que circulava em seu corpo havia secado, não tinha mais esperança, não sentia mais tantos desejos, olhava para uma jovem fêmea, não sentia mais a mesma veracidade de antes, estava cansado de tudo, dos mesmos programas de auditório, das manchetes que pingavam sangue na primeira página do jornal diário, das pessoas com suas conversas e enganações matinais, estava farto, pensava que o melhor remédio seria dormir seis meses, acordar, despencar num sonho profundo, sem volta, direção ou sentido. Charles acordava melancólico, triste, as manhãs eram as mesmas sempre, à velha rotina sufocava seu sentimento e aprisionava sua alma. Charles acordava pela manhã, levantava, vestia sua armadura, abria a porta, caminhava na direção do ponto, pegava o ônibus vazio, no trajeto, percebia que estava perdendo sua vida, sentia vontade de ter uma mulher, de ter amigos, de ser uma pessoa normal, se questionava o que era ser normal, sentia vontade de sair às vezes, mas quando pensava no serviço, na eterna cobrança, na responsabilidade que tinha que ter, na prisão sem grades, que martelava seu cérebro a tarde toda, acabava no bar sozinho, não sentia razões para sua existência, ninguém sentiria sua falta se morresse, não faria diferença nenhuma. Charles tinha essa consciência.
Caminhando pelas ruas um rapaz encontrou jogado no chão um jornal com as notícias do dia, lido e desprezado por alguém, o rapaz se perguntava quem seria essa pessoa, homem ou mulher, enfim pegou o exemplar e colocou na mala. Na hora do almoço, ainda lhe restavam trinta minutos antes de voltar para ao trabalho, resolveu dar uma volta na praça e aproveitar e ler o jornal, deu uma olhada no caderno de esporte, observava atentamente as notícias do seu time que sempre perdia nos domingos de manhã, leu a parte de política, e depois o caderno policial, ficava perplexo com a crueldade do ser humano. No canto inferior esquerdo da página principal tinha uma nota sobre um homem que tinha cometido suicídio, ele achou interessante o assunto, por muitas vezes pensou na possibilidade de acabar com tudo de uma vez, rápido e sem dor, no fundo sabia que não tinha coragem. O jovem começou ler a matéria.
“Homem de quarenta anos é encontrado morto na estação antiga de trem por volta das duas horas da madrugada. O corpo de Charles Peixoto foi encontrado pelo vigia da estação, que fazia sua ronda noturna”. Nenhum parente, nenhum amigo ou conhecido reconheceu o que restou do corpo dilacerado de Charles, ninguém foi ao seu enterro, porque iriam?
Alex Medeiros.
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Quarenta minutos para cinco da madrugada.
Entrei no primeiro banheiro que encontrei pela frente desesperado com duas cápsulas de cocaína no bolso. A rua estava escura e molhada, havia caído um dilúvio no centro velho da cidade. Respirei, despejei metade na carteira, em seguida mandei um tiro violento, em poucos segundos meus olhos estatelaram, minha pupila ficou branca, meu coração disparou, comecei a suar feito um porco, parecia que eu tinha corrido trezentos metros em nove segundos. Abri a torneira, lavei o rosto, vi um filete vermelho escorrendo pelo lavável, olhei no espelho, meu nariz estava sangrando, peguei um rolo de papel higiênico, não parava de pingar emporcalhando o chão todo, alguém ao lado de fora batia com força na porta, pensei que fosse a policia querendo algo, mas isso não acontecia, ficava sempre pensando na resposta que daria aos guardas. Fiquei cinco minutos estancando o sangue, fumando cigarro na privada vazia, o sangue parou de escorrer, ao sair do banheiro pedi desculpas pela demora, era um casal de viciados reclamando. Sentei perto do balcão, pedi uma cerveja, o bar estava cheio, a noite estava clara, no fundo quatro garotas animavam o ambiente. Doce ilusão. Ficava observando a fila do banheiro, pensando em ir para casa. A fila não parava de crescer, peguei duas latas, paguei, caminhei contra o fluxo, desci rápido, sem olhar para trás. Cheguei em casa, fui direto ao banheiro mandar o restante da cápsula, bateu forte de novo, abri a geladeira, peguei uma cerveja, liguei a televisão, mas nada me agradava, coloquei um disco do Velvet Underground com a doce voz de Lou reed, cantando como se fosse um anjo despedaçado e cheio de fúria. Fiquei fritando na frente do computador tentando escrever alguma coisa, não saia absolutamente nada, desisti, ficava constantemente indo ao banheiro, abria a geladeira e pegava mais cerveja, não conseguia me concentrar, minha respiração estava ofegante. Desliguei o computador, o som e fui para cama. Não conseguia dormir, a angustia tomava o espaço, minha mente não parava, pensava na minha garota, pensava na minha mãe, no cachorro e no maldito emprego, não conseguia pregar os olhos. Levantei dei uma olhada na rua através da janela, tudo estava calmo, o silencio sufocava a noite dava para ouvir o barulho do vento balançando as cortinas dos outros apartamentos. Fui até a gaveta do armário, lembrei que ainda tinha uma ponta de um bec, um rapaz latino, tinha trazido foi ao Panamá, me vendeu vinte gramas, dava para mais ou menos uns doze baseado. Ascendi na cama, dei quatro tragos e joguei de volta no cinzeiro. Deitei na cama, fiquei olhando para o céu da janela do quarto escuro abafado cheirando a naftalina, havia poucas estrelas brilhando, a noite estava fria, apenas a escoria humana ainda buscava diversão. Fechei os olhos, me veio como um filme, comecei a pensar na minha infância, lembrei do time de futebol que tinha sido campeão na sétima serie, costumávamos a ganhar dos mais velhos, era o momento de glória e a única forma que conseguia ficar com uma garota mais velha e tocar suas coxas grossas, era mágico, sabia que logo passaria, mas realmente valia a pena. Deu sono. Fui pra cama dormir, sabia que no outro dia, seria um dia duro.
Alex Medeiros
Alex Medeiros
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
O animal que conta histórias.
Consegui chegar no prédio depois de uma hora no transito caótico, era uma segunda feira chuvosa, poucas pessoas transitavam pelas ruas. Abri a porta do saguão, dei de frente com um camarada de campana, ele estava tremendo, bicudo até o talo, perguntou se eu estava a fim de usar droga e tomar uma cerveja. Eu estava trabalhando que nem burro de carga, doze dias seguido sem folga, pensei bem, porque não? Falei para ele esperar, precisava guardar minha mala, ligar para minha namorada e pegar mais dinheiro. Entrei no meu quarto, abri a gaveta, peguei a carteira e uma nota de cinqüenta. Fui na cozinha, ainda tinha café na garrafa, coloquei no copo, desci a escada correndo. Ele estava lá, pegamos seu carro, fomos direto na fonte que nunca para de brotar, seis cápsulas, três pra cada, a quantidade era um absurdo, fiquei assustado, pensando que desta vez iríamos assinar nossa sentença de morte, abrimos uma despejamos tudo, estiquei duas carreiras enormes, a cocaína era boa, parecia que eu tinha corrido um quilometro, comecei a suar frio, meu coração disparou, meus dentes começaram ranger, meu colega já estava incomunicável. Paramos no posto, compramos seis latas de cerveja, ficamos bebendo, ouvindo rádio e as noticias do mundo. Fui no banheiro, aproveitei para mandar outra carreira, bateu forte que nem uma faca afiada, dilacerando um corpo apodrecido. Decidimos dar uma volta pelo centro da cidade, tudo estava fechado apenas bêbados e prostitutas arriscavam-se nanoite fria, vimos uma padaria aberta, estacionamos o carro, descemos e fomos comprar mais cerveja, o dono não quiz vender, prosseguimos e mais a frente tinha um boteco horrível aberto, pegamos oito latas, uma garrafa de vodka, saímos rápido, minha mente não parava de pensar um minuto si quer, despejei mais uma cápsula, mandamos e ainda restavam uma pra cada, com o álcool, meu colega começou falar mais, conversamos sobre política, futebol, mulheres e sobre a condição ridícula do ser humano, colocamos o restante, pensei que teria um treco, comecei a tremer, meu coração disparou na hora, abrimos a garrafa de vodka e mandamos ver no gargalo, passei só a beber, o sujeito queria voltar e pegar mais dois, disse que eu estava tranqüilo, tinha chegado no meu limite, o bom jogador deve saber a hora de parar quando esta ganhando. Eram cinco horas da manha, o dia já estava claro, ninguém nas ruas, apenas dois insanos, rodando de carro e a viatura na nossa cola, quebrei numa rua qualquer e conseguimos dispistalos, não tínhamos nada, apenas uma garrafa de vodka pela metade e um maço de cigarro quase vazio. Sugeri para meu colega que passássemos no morro para pegar um pouco de fumo. Pegamos e fomos até uma praça, longe da civilização, ascendemos um baseado, ficamos contemplando o sol de todos os dias. Voltamos para casa e para dentro de nossas vidinhas tristes, sem grandes novidades.
Alex Barbosa Medeiros
Alex Barbosa Medeiros
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