quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Acordo todos os dias a cinco. Levanto, vou direto para o banheiro, lavo o rosto, escovo os dentes, entro no chuveiro para tirar o sono e dar uma refrescada no calor insuportável. Olho através da janela, o sol esta lá fora, oferecendo-me um novo dia inteiro pela frente. Preparo um café, passo a camisa branca, calça preta, engraxo meu sapato marrom e desço pela escadaria velha, abro a porta, olho para o ponto do ônibus, sempre lotado, toda manhã é igual, as mesmas pessoas, com suas roupas cheirando a naftalina. Cadáveres ambulantes a beira de um colapso. Pego o trem, desço na estação nova e vou caminhando até a fábrica, almoço, janto, depois de muito suor, volto para a casa com a mesma face envelhecida e cansada diante do espelho.

Alex Medeiros
A noite estava linda, mas o calor era insuportável. Decide pegar o carro e sair pelas ruas, não passava nada na televisão como sempre. Tomei uma ducha enquanto a cerveja gelava no congelador, escovei os dentes, meti a cueca e coloquei uma música do “The Doors”. Ainda tinha um pouco de fumo na gaveta, enrolei um, ascendi e fiquei viajando passando as faixas do disco. Peguei a chave do carro, fechei as janelas da sala e fui para o estacionamento. Parei no posto perto de casa, completei o tanque e comprei seis latas de cerveja. Abri uma, coloquei numa rádio de jazz, abri os vidros e fiquei sacando o movimento das pessoas, e suas vidas funcionando como um peão no tabuleiro. Parei numa praça qualquer com uma igreja no fundo, um bêbado e um cachorro lambendo sua boca. Abri outra lata, fiquei pensando no que nunca mudava. Liguei o carro, as cervejas tinham acabado então fui direto ao mercado mais próximo. Não queria ficar em qualquer boteco ouvindo os bêbados contarem suas emocionantes histórias e lições de vida, não queria ninguém bajulando no meu ouvido para pagar mais um copo de pinga, estava a fim de ficar tranqüilo, sem ninguém para incomodar. Peguei uma garrafa de vodka, doze latas de cerveja e fui pro caixa. Tomei uma cerveja no carro parado no estacionamento, olhando para as mães gostosas com seus filhos no colo, esperando seus maridos com as compras. Adorava fazer isso, tomar uma no carro, ouvindo música. O homem é o rei do conforto. Dei partida no carro, decidi ir para casa, no caminho parei antes da faixa, o farol estava vermelho, uma gostosa passava com uma saia mostrando sua bunda. Não falei nada. Esperei ela passar lentamente com os olhos, meu pau endureceu na hora, fiquei imaginando eu comendo ela de quatro no chuveiro. Continuei o percurso, cheguei em casa, fui para o banheiro e, bati uma punheta, esfolando a cabeça do meu pênis. Abri a geladeira, peguei uma cerveja, deitei no sofá e dormi ali mesmo.

Alex Medeiros

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Primeira serie a gente nunca esquece

Lembro-me de quando tinha sete anos e ainda éramos uma família. Papai, Mamãe, duas irmãs e o menino caçula que só aprontava e era sempre defendido pela madre superiora. Lembro dos meus primeiros dias na escola pública do bairro. Minha primeira serie. Queria que minha mãe não fosse embora naquele dia. Mas ela foi. Sentia-me um estranho no ninho, querendo voltar ao útero. A hora que mais esperava era o recreio como chamávamos na época. No pátio do colégio, tinha a cantina do Bigode, um português gordo e simpático. Costumava todo santo dia comer um misto quente e tomar uma coca, às vezes pedia uma pizza e bebia um guaraná. Foi no balcão da cantina que olhei um anjo e fiquei encantado, parecia que o tempo tinha paralisado, uma garota da minha idade sorrindo ao meu lado. Loira, magra e olhos verdes. Achei um pouco estranho não tinha passado por nada parecido. Contei para minha amiga, ela não gostou muito da notícia porque todos no prédio em que morávamos, diziam que quando crescêssemos, iríamos namorar. Percebia que ela gostava de mim. Ficou triste. Mesmo assim pedi que ela me ajudasse a falar com a garota. Não gostou da idéia e não fez nada. Decidi eu mesmo fazer algo e bolei um plano. Pensei que poderia agradá-la com um presente e conquistá-la, observava meu pai quando ele queria agradar minha mãe, dava um par de brincos, colares ou um relógio. Esperei meus pais saírem para o serviço. Entrei no quarto tranquei a porta, abri a caixa de jóias da minha mãe, havia muitos brincos, pulseiras, coisas de mulher. Peguei um colar e um batom em forma de morango. Guardei na minha mochila e sai de mansinho. Chegou à noite fui para o quarto dormir. Finalmente era segunda, estava ansioso, inseguro, mas decidido. Embrulhei os presentes e coloquei no bolso. Fui para a escola. Não conseguia assistir a aula de matemática, estava um saco e as horas não passavam. Finalmente tinha dado a hora do intervalo, saí correndo feito louco. Ela não estava lá, perguntei a sua colega, disse-me que estava doente e não pode vir. Fiquei triste e aliviado por um lado. Chegou terça feira, não apareceu, na quarta também não. Veio na quinta, trazendo seu belo sorriso. Olhei para ela desejei uma boa tarde, mas não consegui falar nada, muito menos lhe dar os presentes, pedi para minha amiga ela de jeito nenhum aceitou, disse que eu não teria chance, então fiquei chateado, pensei em não desistir, queria conquistar aquela pequena, então arrumei outro plano. Escrevi um bilhete e pedir para sua colega de classe entregar. Comecei a escrever que, achava ela muito bonita e queria namorar, coloquei meu nome e guardei o bilhete na mochila. No dia seguinte eu estava pálido e tremendo, falei com a garota para entregar o bilhete. Ela não respondeu no mesmo dia, sua mãe sempre estava esperando – a no portão de saída. Passei a noite jogando vídeo game e pensando no que seria do amanhã. Chegou o grande dia, queria saber a resposta logo, então a colega dela me devolveu o bilhete, estava escrito que sim e que ela também me achava bonitinho. Então falei com ela no outro dia no recreio, comemos um lanche, eu experimentei sua pizza, ela provou meu misto quente, então pensei que seria a hora certa, entreguei os presentes na sua mão, ficou vermelha, guardou e me deu um Celinho. A partir daquele dia começamos a namorar, andávamos de mão dada pelo corredor, as pessoas olhavam para nos como se fossemos estranhos, mas eu nem ligava, os outros garotos olhavam como se eu fosse um cara de muita sorte, não lembro como a história terminou. Tudo tem que ter um fim.

Alex Medeiros




segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Trabalhava para uma tia muito rica. O emprego era tranqüilo. Eu ganhava quinhentos reais semanais, de segunda a sexta, oito horas diária, dava para pagar as contas e ainda sobrava um troco para torrar com porcarias que na maioria das vezes não precisamos. Minha tia era casada com um dono de uma das maiores empresas de pneu. O ano tinha sido bem rentável, ela estava toda orgulhosa. Certo dia eu estava no computador jogando paciência, estava ansioso para sair e paquerar umas mulheres na noite, era uma sexta quente, fervorosa como um caldeirão. Quando alguém anunciou com uma voz distorcida em um desses microfones fedorentos de saliva meu nome, era para eu comparecer na gerencia, a principio fiquei assustado, mas tinha lembrando que havia tempo que não fazia nenhuma cagada, então entrei no elevador dei boa tarde para ascensorista que usava um uniforme azul colado e dava para perceber que sua perna era grossa e atlética, ficava sonhando em agarrar aquela bunda por apenas uma noite, seria maravilhoso. Falei com a secretária que também não era de se jogar fora, mandou eu ir direto a sala que a patroa estava esperando. Minha tia me deu um beijo, um abraço fervoroso, afinal já fazia dois anos que eu estava sendo seu cachorrinho de estimação. Ficou meia hora contando história que gostava muito da minha mãe Vera e de mim, fiquei ouvindo aquela lenga lenga toda, comecei a bocejar de sono, quando ouvi lá no fundo sua doce voz ecoar de longe no meu ouvido para abrir o cofre, voltei na hora. Perguntei, ela me mandou abrir o cofre. Abri, estava cheio de plaques de notas de cinqüenta e cem reais. Então ela pegou um plaque, falou que tinha uma quantia de dois mil em notas de cinqüenta e disse que era um presente merecido, não questionei e dei um abraço pensando no que eu faria com a grana. A hora de ir embora não passava, tinha ido ao banheiro duas vezes soltar um cagão. Olhei para o relógio, não acreditava que dentro da minha mochila velha, tinha tanto dinheiro guardado, nunca tinha visto tanto cascalho assim na vida, livres de impostos. Peguei o primeiro ônibus que passou sentido, Avenida Paulista, estava vazio com alguns boêmios nos bancos de trás, bebendo e cantarolando músicas do Raul Seixas. Eram seis horas, havia saído do serviço as cinco, era uma véspera de feriado. Decidi parar num bar na Rua Augusta, chamei uma cerveja, sentei na poltrona e fiquei observando a linda tarde que caia. Pedi mais uma cerveja e mais outra em seguida, quando percebi, já tinha tomado seis garrafas, o calor estava insuportável. Olhei para o céu e vi um avião gigantesco passar por cima dos meus olhos, pensei na hora que nunca tinha pisando num, então poderia ser uma boa hora. Pedi mais uma gelada e fiquei num conflito interno de ir ou não ir. Resolvi que sim e peguei uma ponte aérea Rio, São Paulo, ida e volta, paguei trezentos e cinqüenta reais, sobraram, mil seiscentos e cinqüenta reais, dava para ficar uns dias, mas o que eu queria mesmo seria coisa rápida. Cheguei no aeroporto do Rio de Janeiro, aquele bafo quente misturado com fedor e a umidade me davam náuseas. Vi no saguão diversas mulheres de corpos exuberantes, prontas para devorarem seus machos. Perguntei a um taxista se ele conhecia algum morro por aqui que vendesse drogas. Os dois primeiros ficaram assustados e não quiseram, mas sentia que mais cedo e mais tarde apareceria um loco que toparia. Falei com um rapaz, parecia ser mais novo, perguntei para ele se sabia onde conseguiria pegar três papelotes de cocaína. Ele disse que conseguia com um conhecido dele que subia no morro, conhecia os rapazes do movimento, o taxista ligou para o rapaz que sempre estava de moto fazendo entregas extra. Tirei sessenta reais e dei na mão do taxista, disse pra ele me dar quatro, ficar com um, da um para o rapaz da moto e ainda paguei setenta reais da corrida, fiquei esperando dentro do carro, o taxista entrou primeiro, o rapaz estacionou a moto e entrou no carro, fiquei cabrero na hora em que o taxista pediu para colocar um tiro. Achei justo e coloquei metade de um inteiro que parecia um travesseiro gigante. Demos duas carreiras, parecia que eu tinha corrido uns dois quilômetros era da pura, muito boa. O cara da moto foi embora. Pedi para o taxista me deixar perto do aeroporto. Meu coração começou a disparar, comecei a ranger os dentes fortes, doíam o maxilar e a fonte, dei mais um tiro antes de sair do carro agradeci o taxista. Parei em um bar perto do aeroporto, pedi uma cerveja e fiquei olhando umas gostosas que passavam pela rua. Entrava toda hora no banheiro e mandava ver, meu vôo sairia às dez horas da noite. Cheguei no aeroporto de Cumbica, peguei um táxi e ainda fui para casa com dois papeis fechado no bolso.


Alex Medeiros
15/01/2008

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Cem Passos

O filme Cem Passos narra a história real da máfia italiana. Baseado em fatos verídicos traz como personagem principal Peppino Impastato, um rapaz que, apesar de pertencer a uma família de mafiosos, é influenciado por um pintor comunista e se filia ao partido esquerdista. Desesperado, seu pai faz de tudo para integrá-lo ao mundo do crime, mas Peppino o desafia e mostra todo seu desprezo a essa realidade. Ele, inclusive, funda uma estação de rádio rebelde e distribui mensagens contra o crime organizado, estimulando outros jovens ao seu redor. A história se passa em Cinisi, uma minúscula cidade siciliana que, nos anos 60, era ponto de referência no tráfico de drogas. Lá, além de Peppino, vive o chefão Tano Badalamenti, precisamente há cem passos de sua casa. O elenco é formado por Luigi Lo Cascio, Luigi Maria Burruano, Lucia Sardo, Paolo Briguglia, Tony Sperandeo, Andrea Tidona, Claudio Gioè. Um filme encantador e sincero.
Alex Medeiros

Nossa Imprensa vergonhosa

Nossa Imprensa Vergonhosa.
Por: Alex Medeiros

A imprensa brasileira é comandada por famílias que estão no poder desde 1990 são elas: Abravanel (SBT), Bloch (Manchete), Civita (Abril), Frias (Folha de São Paulo), Levy (Gazeta Mercantil), Mesquita (O Estado de São Paulo), Nascimento Brito (Jornal do Brasil), Saad (Bandeirantes) e Sirotsky (Rede Brasil). Por serem empresas elas obedecem à lógica do mercado visando em primeiro plano o lucro. A notícia perdeu sua verdadeira essência e seu valor de informação para simplesmente virar um produto descontextualizado, manipulador e tendencioso. Essas empresas, não querem ou não estão interessadas em discutir os problemas da sociedade. As transnacionais como os jornais dizem, não querem saber se o povo passa fome, não querem saber das filas nos hospitais por falta de atendimento médico ou falecimentos por falta de remédios nos postos de saúde, o caos do transporte, elas não querem discutir uma política digna para a construção de um país democrático, porque se fizessem, perderiam sua soberania e seus lucros iriam despencar. Enquanto essas famílias estiverem por de trás das empresas de comunicação, o país nunca terá um jornalismo verdadeiro voltado para o social e para a formação de seres humanos e não meros consumidores.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Caminhando pela rua
No beco escuro
Estranhos em perigo
Alimentam se da noite
Sem destino
Sem rumo
Sem direção
Caminhando pela rua
No beco escuro
Anjos prostituídos
Caídos no chão
Doce sonho
Futuro de uma ilusão
Sem coragem
Sem amor
Sem emoção
Caminhando pela rua
Até o fim do dia.

ALEXMEDEIROS
Resolvi ficar em casa não estava nem um pouco a fim de trabalhar. Fiquei na cama pensando. Queria apenas poder ficar deitado o resto da vida mamando nas tetas do governo. Doce sonho. Fazia dois anos que não tirava férias. Não precisei fazer a barba, levantei, coloquei a roupa, escovei os dentes, lavei o rosto e tomei uma ducha. O calor e a umidade eram de matar. Voltei a dormir mais um pouco, era divino, tinha que aproveitar, no outro dia levantaria as cinco da manhã. Acordei assustado com o barulho do telefone. Atendi
­­---- Alo?
---- Gostaria de falar com o Carlos?
---- É ele, pois não?
---- Aqui é o Mathias porque o senhor não veio trabalhar?
---- O chefe desculpa é que acordei com uma dor de cabeça infernal e meu corpo esta queimando de febre, estou me trocando para ir ao médico.
---- Vou fingir que acredito.
---- Mas é verdade.
---- Tudo bem amanhã as seis, ou vou te dar um pé na bunda.
---- Até amanhã e passar bem.
O desgraçado era apenas um pau mandado que achava ser o dono. Coitado, deve ter sido abusado na infância. Voltei para a cama ainda eram onze horas. Tive um pesadelo horrível onde alguns rapazes dentro de um opala preto com os vidros filmados me seqüestravam e no final metiam um balaço na minha cabeça. Acordei suando frio. Ainda eram duas da tarde. Fiz um lanche de frango e tomei uma coca bem gelada. Liguei a televisão sempre os mesmos programas cretinos com olimpíadas bobocas ou evangélicos pregando seu cinismo. Coloquei no canal de desenho.
Acordei por volta das cinco com uma tremenda dor de cabeça, na televisão estava passando uma daquelas novelas onde os jovens são bonitos, sem espinhas na cara e malham para ficarem iguais a seus ídolos. Tenho pena de jovens que fazem isso. Desliguei a TV e fui para o quarto fumar um baseado. Levantei lesado. Preparei o café, comi um pão com manteiga e fui para rua dar uma volta.
A tarde tinha caído e a noite chegava agradável. Não tinha como não olhar para as pernas das garotas de mini saia à mostra que passavam na calçada. Parei no bar, pedi uma cerveja e um copo de conhaque. Conversei com o rapaz do balcão e perguntei se tinha alguma música do Raul Seixas para lembrarmos que existiu música boa e verdadeira. Colocou o cd na hora. Argumentei com ele que hoje o rock morreu, está em baixa. Expliquei que são sempre as mesmas bandas fazendo música comercial para tocar na rádio. Ele fingia que escutava mas não entendia quase nada. Tomei mais uma cerveja. Uma morena deliciosa com um vestido branco mostrando sua calcinha vermelha pediu-me um cigarro. Dei e ascendi, pedi que ela sentasse e me acompanhasse na cerveja, disse que estava esperando seu macho, eu disse que pena, e que seu namorado era um cara de sorte, foi embora sem falar nada. Estava pensando que tinha que voltar na merda do meu serviço e olhar para aqueles seres humanos detestáveis com suas roupas bregas. Dava ânsia de pensar no meu chefe com aquele terno e aquela gravata vermelha de bolinha ridícula, tinha dia que ele vinha aceso e aposto que tinha dado à noite inteira.
Voltei para casa. As mesmas fofoqueiras de sempre falando da vida alheia. Fui direto para o chuveiro. Deitei no sofá, estava passando um bom filme de terror. Apaguei ali mesmo.

Alex Medeiros.