Trabalhava para uma tia muito rica. O emprego era tranqüilo. Eu ganhava quinhentos reais semanais, de segunda a sexta, oito horas diária, dava para pagar as contas e ainda sobrava um troco para torrar com porcarias que na maioria das vezes não precisamos. Minha tia era casada com um dono de uma das maiores empresas de pneu. O ano tinha sido bem rentável, ela estava toda orgulhosa. Certo dia eu estava no computador jogando paciência, estava ansioso para sair e paquerar umas mulheres na noite, era uma sexta quente, fervorosa como um caldeirão. Quando alguém anunciou com uma voz distorcida em um desses microfones fedorentos de saliva meu nome, era para eu comparecer na gerencia, a principio fiquei assustado, mas tinha lembrando que havia tempo que não fazia nenhuma cagada, então entrei no elevador dei boa tarde para ascensorista que usava um uniforme azul colado e dava para perceber que sua perna era grossa e atlética, ficava sonhando em agarrar aquela bunda por apenas uma noite, seria maravilhoso. Falei com a secretária que também não era de se jogar fora, mandou eu ir direto a sala que a patroa estava esperando. Minha tia me deu um beijo, um abraço fervoroso, afinal já fazia dois anos que eu estava sendo seu cachorrinho de estimação. Ficou meia hora contando história que gostava muito da minha mãe Vera e de mim, fiquei ouvindo aquela lenga lenga toda, comecei a bocejar de sono, quando ouvi lá no fundo sua doce voz ecoar de longe no meu ouvido para abrir o cofre, voltei na hora. Perguntei, ela me mandou abrir o cofre. Abri, estava cheio de plaques de notas de cinqüenta e cem reais. Então ela pegou um plaque, falou que tinha uma quantia de dois mil em notas de cinqüenta e disse que era um presente merecido, não questionei e dei um abraço pensando no que eu faria com a grana. A hora de ir embora não passava, tinha ido ao banheiro duas vezes soltar um cagão. Olhei para o relógio, não acreditava que dentro da minha mochila velha, tinha tanto dinheiro guardado, nunca tinha visto tanto cascalho assim na vida, livres de impostos. Peguei o primeiro ônibus que passou sentido, Avenida Paulista, estava vazio com alguns boêmios nos bancos de trás, bebendo e cantarolando músicas do Raul Seixas. Eram seis horas, havia saído do serviço as cinco, era uma véspera de feriado. Decidi parar num bar na Rua Augusta, chamei uma cerveja, sentei na poltrona e fiquei observando a linda tarde que caia. Pedi mais uma cerveja e mais outra em seguida, quando percebi, já tinha tomado seis garrafas, o calor estava insuportável. Olhei para o céu e vi um avião gigantesco passar por cima dos meus olhos, pensei na hora que nunca tinha pisando num, então poderia ser uma boa hora. Pedi mais uma gelada e fiquei num conflito interno de ir ou não ir. Resolvi que sim e peguei uma ponte aérea Rio, São Paulo, ida e volta, paguei trezentos e cinqüenta reais, sobraram, mil seiscentos e cinqüenta reais, dava para ficar uns dias, mas o que eu queria mesmo seria coisa rápida. Cheguei no aeroporto do Rio de Janeiro, aquele bafo quente misturado com fedor e a umidade me davam náuseas. Vi no saguão diversas mulheres de corpos exuberantes, prontas para devorarem seus machos. Perguntei a um taxista se ele conhecia algum morro por aqui que vendesse drogas. Os dois primeiros ficaram assustados e não quiseram, mas sentia que mais cedo e mais tarde apareceria um loco que toparia. Falei com um rapaz, parecia ser mais novo, perguntei para ele se sabia onde conseguiria pegar três papelotes de cocaína. Ele disse que conseguia com um conhecido dele que subia no morro, conhecia os rapazes do movimento, o taxista ligou para o rapaz que sempre estava de moto fazendo entregas extra. Tirei sessenta reais e dei na mão do taxista, disse pra ele me dar quatro, ficar com um, da um para o rapaz da moto e ainda paguei setenta reais da corrida, fiquei esperando dentro do carro, o taxista entrou primeiro, o rapaz estacionou a moto e entrou no carro, fiquei cabrero na hora em que o taxista pediu para colocar um tiro. Achei justo e coloquei metade de um inteiro que parecia um travesseiro gigante. Demos duas carreiras, parecia que eu tinha corrido uns dois quilômetros era da pura, muito boa. O cara da moto foi embora. Pedi para o taxista me deixar perto do aeroporto. Meu coração começou a disparar, comecei a ranger os dentes fortes, doíam o maxilar e a fonte, dei mais um tiro antes de sair do carro agradeci o taxista. Parei em um bar perto do aeroporto, pedi uma cerveja e fiquei olhando umas gostosas que passavam pela rua. Entrava toda hora no banheiro e mandava ver, meu vôo sairia às dez horas da noite. Cheguei no aeroporto de Cumbica, peguei um táxi e ainda fui para casa com dois papeis fechado no bolso.
Alex Medeiros
15/01/2008