quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O animal que conta histórias.

Consegui chegar no prédio depois de uma hora no transito caótico, era uma segunda feira chuvosa, poucas pessoas transitavam pelas ruas. Abri a porta do saguão, dei de frente com um camarada de campana, ele estava tremendo, bicudo até o talo, perguntou se eu estava a fim de usar droga e tomar uma cerveja. Eu estava trabalhando que nem burro de carga, doze dias seguido sem folga, pensei bem, porque não? Falei para ele esperar, precisava guardar minha mala, ligar para minha namorada e pegar mais dinheiro. Entrei no meu quarto, abri a gaveta, peguei a carteira e uma nota de cinqüenta. Fui na cozinha, ainda tinha café na garrafa, coloquei no copo, desci a escada correndo. Ele estava lá, pegamos seu carro, fomos direto na fonte que nunca para de brotar, seis cápsulas, três pra cada, a quantidade era um absurdo, fiquei assustado, pensando que desta vez iríamos assinar nossa sentença de morte, abrimos uma despejamos tudo, estiquei duas carreiras enormes, a cocaína era boa, parecia que eu tinha corrido um quilometro, comecei a suar frio, meu coração disparou, meus dentes começaram ranger, meu colega já estava incomunicável. Paramos no posto, compramos seis latas de cerveja, ficamos bebendo, ouvindo rádio e as noticias do mundo. Fui no banheiro, aproveitei para mandar outra carreira, bateu forte que nem uma faca afiada, dilacerando um corpo apodrecido. Decidimos dar uma volta pelo centro da cidade, tudo estava fechado apenas bêbados e prostitutas arriscavam-se nanoite fria, vimos uma padaria aberta, estacionamos o carro, descemos e fomos comprar mais cerveja, o dono não quiz vender, prosseguimos e mais a frente tinha um boteco horrível aberto, pegamos oito latas, uma garrafa de vodka, saímos rápido, minha mente não parava de pensar um minuto si quer, despejei mais uma cápsula, mandamos e ainda restavam uma pra cada, com o álcool, meu colega começou falar mais, conversamos sobre política, futebol, mulheres e sobre a condição ridícula do ser humano, colocamos o restante, pensei que teria um treco, comecei a tremer, meu coração disparou na hora, abrimos a garrafa de vodka e mandamos ver no gargalo, passei só a beber, o sujeito queria voltar e pegar mais dois, disse que eu estava tranqüilo, tinha chegado no meu limite, o bom jogador deve saber a hora de parar quando esta ganhando. Eram cinco horas da manha, o dia já estava claro, ninguém nas ruas, apenas dois insanos, rodando de carro e a viatura na nossa cola, quebrei numa rua qualquer e conseguimos dispistalos, não tínhamos nada, apenas uma garrafa de vodka pela metade e um maço de cigarro quase vazio. Sugeri para meu colega que passássemos no morro para pegar um pouco de fumo. Pegamos e fomos até uma praça, longe da civilização, ascendemos um baseado, ficamos contemplando o sol de todos os dias. Voltamos para casa e para dentro de nossas vidinhas tristes, sem grandes novidades.


Alex Barbosa Medeiros

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Mathias tinha aproximadamente quarenta anos. Morava com sua mãe, uma velha dócil que não saia do quarto pra nada. Mathias acordava todos os dias seis horas da manhã, vestia seu pijama surrado, suas sandálias de couro, caminhava sempre em direção ao banheiro, tomava uma ducha, fazia sua barba, às vezes cortava seu rosto, o sangue misturava-se junto ao creme de barbear parecendo um sorvete de nata com calda de framboesa. Mathias estava vivendo do seguro desemprego há dois meses, restava mais quatro parcelas para mamar nas tetas do governo. Mathias ficava o dia inteiro trancado no quarto, lendo Marx, assistindo filmes de gangsters e tocando guitarra aos finais de semana, chapado de vinho. Ele vivia sozinho, poucos amigos e sem nenhuma mulher para ouvir suas histórias ou opiniões de assuntos muitas vezes banais depois de uma boa foda, vivia andando pelas boates da Rua Augusta com duzentos reais na carteira e um pouco de cocaína no bolso. Deitava-se com diversas mulheres, às vezes transava com duas ao mesmo tempo, não lembrava o rosto de nenhuma, depois ficava chorando no, reclamando que não conseguia viver ao lado de nenhuma mulher. Mathias tinha um monza azul 89, dava para o gasto, saia com colegas da faculdade, dava carona e metia com elas, nos cantos escuros da cidade, o medo era o seu companheiro. Mathias não podia parar no bar que chegava algum amigo oferecendo uma carreira, era quando tudo começava e terminava muitas vezes numa maca de hospital tomando glicose nas veias. Mathias não conseguia arranjar uma companheira, preferia viver sozinho, sem ninguém para torrar sua paciência, seguia seu caminho como lobo solitário vagando pelas ruas e florestas de concreto, preferia chegar em casa, tomar seu banho, comer um miojo de queijo e ascender um grande baseado gordo e depois ouvir discos do Led que seu tio lhe deu. Sua vida era simples, vivia um dia após o outro, pensando sempre no pior para as coisas darem certo, na maioria das vezes não acontecia nada de novo. Cansado da sua vida e de trabalhar no mesmo emprego há dez anos, Mathias teve uma atitude corajosa de tentar fazer algo, ficou algum tempo na praia, alugou uma casa, comprou cinqüenta gramas de fumo, não agüentava mais ver o mar ir à padaria vazia e tomar café, decidiu voltar pra cidade, sua mãe estava na casa de uma tia. No ultimo mês da parcela, Mathias estava desesperado, sem emprego, e sem dinheiro para pagar as contas, Mathias tomou uma decisão drástica, estava decidido. Numa sexta feira chuvosa, com poucas pessoas circulando na rua, Mathias recebeu mil e quinhentos reais, pegou todo o dinheiro, enfiou na carteira, foi no melhor restaurante, depois foi no puteiro, transou com a prostituta mais linda da cidade, em seguida passou na boca do lixo e pegou cinco gramas de cocaína das puras, entrou no quarto e ficou mandando várias carreiras, bebendo água, pois a cerveja havia acabado, separou trezentos reais, voltou na boca, perguntou para o rapaz de camiseta preta que segurava a boca, se ele conseguiria um berro por trezentos reais, o cara disse que ia tentar, pedindo para Mathias voltar uma hora mais tarde. Mathias retornou duas horas depois, falou com o mesmo cara, comprou o revolver com duas balas, voltou para o quarto cheirou toda a cocaína que restava de uma vez só, seu corpo estava anestesiado, sem hesitar, Mathias deu um tiro certeiro em sua traquéia, seu corpo despencou no chão formando uma imensa poça de sangue, pintando a parede do seu quarto de vermelho.

Alex Medeiros