Entrei no primeiro banheiro que encontrei pela frente desesperado com duas cápsulas de cocaína no bolso. A rua estava escura e molhada, havia caído um dilúvio no centro velho da cidade. Respirei, despejei metade na carteira, em seguida mandei um tiro violento, em poucos segundos meus olhos estatelaram, minha pupila ficou branca, meu coração disparou, comecei a suar feito um porco, parecia que eu tinha corrido trezentos metros em nove segundos. Abri a torneira, lavei o rosto, vi um filete vermelho escorrendo pelo lavável, olhei no espelho, meu nariz estava sangrando, peguei um rolo de papel higiênico, não parava de pingar emporcalhando o chão todo, alguém ao lado de fora batia com força na porta, pensei que fosse a policia querendo algo, mas isso não acontecia, ficava sempre pensando na resposta que daria aos guardas. Fiquei cinco minutos estancando o sangue, fumando cigarro na privada vazia, o sangue parou de escorrer, ao sair do banheiro pedi desculpas pela demora, era um casal de viciados reclamando. Sentei perto do balcão, pedi uma cerveja, o bar estava cheio, a noite estava clara, no fundo quatro garotas animavam o ambiente. Doce ilusão. Ficava observando a fila do banheiro, pensando em ir para casa. A fila não parava de crescer, peguei duas latas, paguei, caminhei contra o fluxo, desci rápido, sem olhar para trás. Cheguei em casa, fui direto ao banheiro mandar o restante da cápsula, bateu forte de novo, abri a geladeira, peguei uma cerveja, liguei a televisão, mas nada me agradava, coloquei um disco do Velvet Underground com a doce voz de Lou reed, cantando como se fosse um anjo despedaçado e cheio de fúria. Fiquei fritando na frente do computador tentando escrever alguma coisa, não saia absolutamente nada, desisti, ficava constantemente indo ao banheiro, abria a geladeira e pegava mais cerveja, não conseguia me concentrar, minha respiração estava ofegante. Desliguei o computador, o som e fui para cama. Não conseguia dormir, a angustia tomava o espaço, minha mente não parava, pensava na minha garota, pensava na minha mãe, no cachorro e no maldito emprego, não conseguia pregar os olhos. Levantei dei uma olhada na rua através da janela, tudo estava calmo, o silencio sufocava a noite dava para ouvir o barulho do vento balançando as cortinas dos outros apartamentos. Fui até a gaveta do armário, lembrei que ainda tinha uma ponta de um bec, um rapaz latino, tinha trazido foi ao Panamá, me vendeu vinte gramas, dava para mais ou menos uns doze baseado. Ascendi na cama, dei quatro tragos e joguei de volta no cinzeiro. Deitei na cama, fiquei olhando para o céu da janela do quarto escuro abafado cheirando a naftalina, havia poucas estrelas brilhando, a noite estava fria, apenas a escoria humana ainda buscava diversão. Fechei os olhos, me veio como um filme, comecei a pensar na minha infância, lembrei do time de futebol que tinha sido campeão na sétima serie, costumávamos a ganhar dos mais velhos, era o momento de glória e a única forma que conseguia ficar com uma garota mais velha e tocar suas coxas grossas, era mágico, sabia que logo passaria, mas realmente valia a pena. Deu sono. Fui pra cama dormir, sabia que no outro dia, seria um dia duro.
Alex Medeiros
Alex Medeiros