quinta-feira, 5 de junho de 2008

Cachorro do Trópico


Charles é um homem solitário, sem mulheres, não tem família, primos mais velhos ou amigos. Vive só no seu apartamento minúsculo, onde passa a maior parte do tempo no quarto trabalhando, redigindo provas na frente do computador. Entre uma questão e outra, Charles bebe café puro, come pedaços de pizza, ascende alguns cigarros para aliviar a tensão dos prazos, quando o esforço é grande, compra gramas de cocaína, garrafas de vinho, carne, vitelas e barras de chocolate. Charles resolveu tirar alguns dias de folga, estava farto, cansado do mundo e das pessoas, não produziu nada, desligou o telefone, ficou sentado no sofá, fumando cigarro, lendo livros, olhava a rua vazia através da janela, nenhum cristão se aventurava no frio. Antes de ir dormir, ele se levantou, foi escovar os dentes, olhando para o espelho, tomou um enorme susto com seu reflexo, parou por alguns segundos, observou atentamente sua face estampada, seu rosto envelhecido, esburacados, pela primeira vez, sentiu o peso da idade, o medo da morte, talvez seus ossos começassem a doer lentamente, os cabelos dispersavam sobre sua cabeça. Charles sentia que algum órgão vital seu tinha apodrecido, talvez seu coração, talvez o sangue que circulava em seu corpo havia secado, não tinha mais esperança, não sentia mais tantos desejos, olhava para uma jovem fêmea, não sentia mais a mesma veracidade de antes, estava cansado de tudo, dos mesmos programas de auditório, das manchetes que pingavam sangue na primeira página do jornal diário, das pessoas com suas conversas e enganações matinais, estava farto, pensava que o melhor remédio seria dormir seis meses, acordar, despencar num sonho profundo, sem volta, direção ou sentido. Charles acordava melancólico, triste, as manhãs eram as mesmas sempre, à velha rotina sufocava seu sentimento e aprisionava sua alma. Charles acordava pela manhã, levantava, vestia sua armadura, abria a porta, caminhava na direção do ponto, pegava o ônibus vazio, no trajeto, percebia que estava perdendo sua vida, sentia vontade de ter uma mulher, de ter amigos, de ser uma pessoa normal, se questionava o que era ser normal, sentia vontade de sair às vezes, mas quando pensava no serviço, na eterna cobrança, na responsabilidade que tinha que ter, na prisão sem grades, que martelava seu cérebro a tarde toda, acabava no bar sozinho, não sentia razões para sua existência, ninguém sentiria sua falta se morresse, não faria diferença nenhuma. Charles tinha essa consciência.

Caminhando pelas ruas um rapaz encontrou jogado no chão um jornal com as notícias do dia, lido e desprezado por alguém, o rapaz se perguntava quem seria essa pessoa, homem ou mulher, enfim pegou o exemplar e colocou na mala. Na hora do almoço, ainda lhe restavam trinta minutos antes de voltar para ao trabalho, resolveu dar uma volta na praça e aproveitar e ler o jornal, deu uma olhada no caderno de esporte, observava atentamente as notícias do seu time que sempre perdia nos domingos de manhã, leu a parte de política, e depois o caderno policial, ficava perplexo com a crueldade do ser humano. No canto inferior esquerdo da página principal tinha uma nota sobre um homem que tinha cometido suicídio, ele achou interessante o assunto, por muitas vezes pensou na possibilidade de acabar com tudo de uma vez, rápido e sem dor, no fundo sabia que não tinha coragem. O jovem começou ler a matéria.
“Homem de quarenta anos é encontrado morto na estação antiga de trem por volta das duas horas da madrugada. O corpo de Charles Peixoto foi encontrado pelo vigia da estação, que fazia sua ronda noturna”. Nenhum parente, nenhum amigo ou conhecido reconheceu o que restou do corpo dilacerado de Charles, ninguém foi ao seu enterro, porque iriam?

Alex Medeiros.