quarta-feira, 23 de julho de 2008

O Animal que conta histórias


Consegui chegar ao prédio depois de uma hora no transito caótico da cidade, era uma segunda feira chuvosa, poucas pessoas transitavam pelas ruas. Abri a porta do saguão, dei de frente com um camarada de campana, ele estava tremendo, bicudo até o talo, perguntou se eu estava a fim de usar drogas, não hesitei nem por um momento, na hora lembrei que eu estava trabalhando que nem burro de carga, doze dias seguido sem folga, pensei bem, porque não? Falei para ele esperar, precisava guardar minha mochila, ligar para minha namorada e pegar mais dinheiro. Entrei no quarto, abri a gaveta, peguei a carteira e uma nota de cinqüenta reais, ela cheirava a nova. Fui na cozinha, ainda tinha café na garrafa, coloquei no copo e desci as escadas correndo desesperado. Ele estava lá, pegamos o carro e fomos direto à fonte, seis cápsulas, três pra cada, a quantidade era um absurdo, fiquei assustado, pensando que desta vez iríamos assinar nossa sentença de morte, abrimos uma e despejamos tudo, esticamos duas carreiras imensas, a cocaína era boa, parecia que eu tinha corrido dois quilometro sem parar, comecei a suar frio, meu coração disparou e meus dentes começaram a ranger, meu colega estava incomunicável. Paramos no posto, compramos seis latas de cerveja, ficamos bebendo, ouvindo rádio que mesclava boas canções com pitadas de desgraças do mundo. Fui no banheiro, aproveitei para mandar outra carreira, essa bateu semelhante uma faca dilacerando um corpo apodrecido que nem carne na manteiga. Decidimos dar uma volta pelo centro da cidade, tudo estava fechado apenas bêbados e prostitutas arriscavam-se naquela noite fria, observamos uma padaria aberta, estacionamos o carro, descemos e compramos mais cerveja, o dono recusou-se a vender, prosseguimos e mais a diante, tinha um boteco horrível aberto, pegamos oito latas, uma garrafa de vodka, saímos rápido, minha mente não parava de pensar um minuto, despejei mais uma cápsula, mandamos e ainda restavam uma pra cada, com o álcool, meu colega começou falar mais, conversamos sobre política, religião, futebol, mulheres, violência banalizada e sobre a condição medíocre de nossas vidas. Colocamos o restante da cocaína, pensei que fosse ter um treco, comecei a tremer, meu coração disparou na hora, abrimos a garrafa de vodka e mandamos ver no gargalo mesmo, passei só a beber, o sujeito queria voltar e pegar mais dois papéis, eu disse pra ele que estava tranqüilo, estava assustado, com medo, percebe que tinha chegado no meu limite, o bom jogador deve saber a hora de parar. Eram cinco horas da manha, o dia estava claro, ninguém nas ruas, apenas alguns loucos se aventurando, quebrando garrafas de cerveja pelos cantos das ruas. Sugeri que passássemos no morro para pegar um fumo. Fomos até o local pegamos caminhando lentamente a ladeira. Paramos em uma praça e ascendemos um baseado gordo, ficamos contemplando o sol de todos os dias. Voltamos para casa e para dentro de nossas vidas tristes, vazias sem grandes novidades.


Alex Barbosa Medeiros

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